domingo, 24 de outubro de 2010

Admiração

Voltei ao blog. Falta-me disposição, confesso, para introduzir um novo tema. Há tanto o que ser aqui expresso, mas tem me falhado a capacidade de depurar os pensamentos e torná-los opiniões cheias e vigorosas, como busquei antes.

Na falha de se pensar por si, pensa-se por outros. E isso é tão belo quanto humilde. Admirar a capacidade alheia é fantástico para refletirmos sobre o que, de fato, somos e quais as nossas verdadeiras habilidades.

Uma das minhas admirações mais afetuosas, quase como de tio-avô, vai ao poeta Manuel Bandeira. Sua obra me foi, e é, muito importante por conta do que diz e transparece. Ao poeta parece ser fardo a tarefa mais cansativa e complexa ao homem: transformar o que se sente, e só existe na mente, em palavras. Não à toa, a poesia é cultuada desde os primórdios de nossa história. O homem lhe é indissociável.

É bem verdade que nesse mundo de virilidade e machismos inseguros no qual vivemos há tão pouco espaço para a poesia e a sua representação da vida. A vida é tão somente uma página em branco cujo conteúdo se faz como melhor aprouver. Olhamos para ela da forma como quisermos – e pudermos, claro. Os olhares, definitivamente, dependem de tantas outras variáveis que se acabariam as linhas na tentativa de descrevê-las.

Por esse peso da poesia, por sua natureza humana e a faceta quase transcendental a ela atribuída, não posso deixar de fazer uma homenagem a Manuel Bandeira. Ele tinha a incrível capacidade de simplificar coisas aparentemente insolúveis e se expressava em uma sinceridade seca e sofrida, com a melancolia de quem vive esperando a morte. Apesar desse pessimismo que se percebe a princípio, sua obra se transmuta em uma ode à vida e ao amor simples e livre de subterfúgios medrosos.

Ao contrário do que se diz, ele sempre trilhou um caminho próprio em sua obra. De seu início parnasiano cuidadoso ao fim de obra em versos livres e "modernistas", Bandeira foi um "tio" aos poetas modernistas brasileiros, que tiveram nele grande aliado. Seu compromisso com sua arte era ardoroso e ele o cobrava assim de outros artistas, como Vinicius de Moraes, que se tornou grande admirador de sua literatura e sempre apontou o amigo como o poeta brasileiro que mais o influenciou em suas criações.

Separei duas obras do grande poeta: A morte absoluta e Belo belo.

A morte absoluta nos faz sentir uma melancolia recatada, porque trata de morte e do medo primordial de se ir e deixar aqui, no mundo, o espólio inacabado do que se fez e tentou fazer. Demonstra o medo da fragilidade da carne e o absurdo de simplesmente não haver nada além, de interromper-se o existir para surgir a ausência.

Já em Belo belo aparece essa característica precisa e simples de Bandeira. Ele se desfaz das arrogâncias, de todos os acessórios que julgamos ser necessário à rotina, para se entregar à beleza das coisas mais ingênuas. Somente na poesia se pode tirar dos ombros tal peso.

Se quiserem compartilhar suas opiniões sobre os poemas e/ou criticar a minha falta de criatividade, fiquem à vontade.

A morte absoluta


Morrer.
Morrer de corpo e de alma.
Completamente.


Morrer sem deixar o triste despojo da carne,
A exangue máscara de cera,
Cercada de flores,
Que apodrecerão - felizes! - num dia,
Banhada de lágrimas
Nascidas menos da saudade do que do espanto da morte.


Morrer sem deixar porventura uma alma errante...
A caminho do céu?
Mas que céu pode satisfazer teu sonho de céu?


Morrer sem deixar um sulco, um risco, uma sombra,
A lembrança de uma sombra
Em nenhum coração, em nenhum pensamento,
Em nenhuma epiderme.


Morrer tão completamente
Que um dia ao lerem o teu nome num papel
Perguntem: "Quem foi?..."


Morrer mais completamente ainda,
- Sem deixar sequer esse nome.

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Belo Belo


Belo belo belo,
Tenho tudo quanto quero.


Tenho o fogo de constelações extintas há milênios.
E o risco brevíssimo — que foi? passou — de tantas estrelas cadentes.


A aurora apaga-se,
E eu guardo as mais puras lágrimas da aurora.


O dia vem, e dia adentro
Continuo a possuir o segredo grande da noite.


Belo belo belo,
Tenho tudo quanto quero.


Não quero o êxtase nem os tormentos.
Não quero o que a terra só dá com trabalho.


As dádivas dos anjos são inaproveitáveis:
Os anjos não compreendem os homens.


Não quero amar,
Não quero ser amado.
Não quero combater,
Não quero ser soldado.


— Quero a delícia de poder sentir as coisas mais simples.


A quem interessar mais da poesia de Manuel Bandeira, sugiro os poemas Madrigal melancólico, Profundamente, Vulgívaga, Os sapos, Desencanto, Testamento, Vou-me embora pra Pasárgada, Estrela da vida inteira, Poema do beco, Arte de amar...

É isso, gente. Fico aqui, até a próxima.


domingo, 10 de outubro de 2010

Crítica de filme?


"A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida" - Vinicius de Moraes

Sendo fiel à promessa de ser constante, volto a postar aqui. Vai ser difícil ofuscar o sentimento do último post, mas a vida existe e persiste, como dizem muitos. É necessário ir além das reminiscências e das pedras do caminho. Ao menos, parece isso ser o certo a se fazer.

Assisti a Wall Street - o dinheiro nunca dorme e ele me fez refletir bastante, especialmente sobre um tema que sempre paira nas conversas, nos sorrisos e nas felicidades (por que não?) de todos: dinheiro.

O cinema traz consigo um pacote de pensamentos e reflexões. E é impressionante a sua capacidade de nos desconstruir em tão pouco tempo. Wall Street faz um passeio estonteante e veloz pelo mundo enigmático da grande economia. Retrata as pessoas que nós, reles mortais, julgamos não serem reais. Se pensarmos bem, é compreensível. Não parece haver limites a suas vidas. A obsessão, a guerra, os orgulhos poderosos, tudo se congrega para criar uma realidade mutiladora e atroz, onde o dinheiro foi há muito esquecido e o que importa é a sensação de estar em si frente aos outros, ou seja, ser invencível. A invencibilidade remete à imortalidade e não é nem necessário explicar por que ela é tão almejada.

A falta de limites que os personagens transmitem, apesar de serem caçados por diversos censores, como o governo, causa uma grande contradição, pelo menos em mim. Por mais que a publicidade insista em nos vender as impossibilidades de uma vida livre e ousada, cada vez mais sinto as pessoas atadas a valores e necessidades abertamente opostas.

Por exemplo, quando se passeia por um Shopping Center. O que lá existe? Existe uma vida que não é a minha, tampouco a sua. Vende-se imagens, estereótipos, objetos, fotografias e roupas que vão se entranhando lentamente aos gostos das pessoas. Consumir é humano e é justo, faz parte de pertencer à nossa sociedade. O problema é o excesso, a desmedida (ou a Hybris como quiseram os gregos).

Os gregos, por sinal, acreditavam piamente no equilíbrio entre as forças da natureza e, por isso, do homem. Dessa forma, se houvesse numa cidade alguém suficientemente bom para ser muito superior a todos os outros, ele era expulso da polis para evitar a hybris dos sentimentos, como a inveja e a discórdia – era uma forma de se cortar o mal pela raiz. Nós, pelo contrário, insuflamos o excesso. Enfim, até aí, nada de novo.

Mas, o que acontece com aqueles que não podem consumir? Aqueles que vagam a esmo pelos corredores perfumados e aromatizados com cheiros que os próprios narizes nunca sentirão em suas casas; aqueles que são outros quando falamos sobre eles, mas que podem ser nós quando formos sinceros com nossas possibilidades. Não resta nada. O shopping se torna um amontoado de vontades congruentes e insaciáveis. Nós somos insaciáveis, se precisarmos. E esse é o meu link com o filme.

Wall Street narra a história dos bastidores da ganância e do poder, representado pelo dinheiro. A atuação brilhante de Michael Douglas e, especialmente, a natureza demasiado humana de seu personagem conseguem até se sobrepor ao final demasiado palatável - mas justo, ao final das contas. Os planos escolhidos pelo diretor me trouxeram um pouco da asfixia e da vertigem do ambiente retratado. A velocidade e a ferocidade embutida nos diálogos aparentemente corteses sugerem um emaranhado de mistérios, conspirações e intrigas, que, por si só, garantem um bom enredo. Gostei e indico.

No entanto, me fez refletir muito o personagem de Douglas, Gordon Grekko. Principalmente em suas falas. Em um momento ele compara o dinheiro a uma puta sem humanidade, que se não for devidamente vigiada se vai e nunca volta. Isso demonstra uma necessidade insistente e arrebatadora de se massagear um ego que não cabe em si mesmo. Tal fato está relacionado com a busca pelo poder e pela vaidade, que se utiliza do dinheiro como um artifício para fazer valer outras motivações díspares do que se pode pensar sobre a riqueza.

Nesse sentido, surge o dinheiro. O que é, afinal, o dinheiro? Muitos vão me dizer que é a solução dos problemas e outros vão ser audaciosos o suficiente (como já fui muitas vezes) e dizer que ele não traz felicidade. Que se fodam os clichês. Sim, o dinheiro é importante. Toda a vida se pauta nele, naquilo que ele proporciona. É aí que gosto de ver a questão. O dinheiro não é um fim em si mesmo, mas, ao contrário, um meio para fins outros.

O filósofo alemão Edmund Husserl introduziu uma forma muito interessante de se analisar a realidade. Ele dizia que a verdade das coisas nos era impossível de ser compreendida porque o exterior e as coisas que vemos nele impedem de se extrair a verdade ou a essência daquilo que vemos. Assim, o objeto em questão se "contamina". Então, ele propôs uma forma, com vários métodos, de se buscar extrair das coisas aquilo que as tornava "impura". A isso se denominou redução fenomenológica.

Por isso, é necessário fazer uma redução fenomenológica, em seus devidos termos, em relação ao dinheiro. Por que devemos tê-lo? Ele faz feliz. E por que? Porque nos permite ter acesso às coisas, ao consumo, à tranqüilidade de uma vida rica e farta. Na verdade, o papel pouco importa. Seu valor não está no lastro, mas em suas conseqüências.

O dinheiro nos leva a um mundo sem dificuldades, onde parece ser mais fácil se embeber de felicidade. Afinal, a felicidade e a realização são os fins últimos de nossa existência. Representam talvez a única forma de poder dizer, e com sinceridade, em seu último suspiro: “Eu aproveitei a minha vida. Fiz valer cada segundo que me houve”. Esse é o desejo mais persistente na cabeça, ainda que seja mórbido, mas quem disse que a vida não é?

Entre tantas pretensas vontades e desejos, surge o dinheiro como o instrumento, o arauto de esperança da vida vazia. Vale ressaltar que novamente o problema não está no dinheiro, ele não é maligno. Por sinal, ele não quer nada, é um mero meio. O problema - se isso for um problema e não uma materialidade inequívoca - está em quem o utiliza.

Uma das frases de Gekko ficou em minha cabeça por sua incrível realidade. Quando ele diz à filha que ela precisa give a break (não soube como traduzir com precisão, mas é algo como dar uma trégua) às pessoas porque elas são um misto de coisas que não entendem, simplesmente faz um resumo muito fiel do que somos e como funcionam nossas motivações. Se tantos se sentem perdidos, por que esperar sempre por atitudes encontradas?

A vida se faz por cima do encontros e desencontros.

Fico por aqui e até a próxima.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

A partida e a chegada

A vida nos traz tanta coisa. De decepções a felicidades, tudo faz parte de estar vivo. Inclusive a morte, que é, senão uma pré-condição, o destino último dos nossos suspiros.

E ela pode ser triste. Ou não. A grande dificuldade é entender sua estreita ligação com tudo o que nos envolve. Temê-la é humano e admirá-la, por sua realidade material, mostra maturidade. O grande problema da morte é a incerteza do que virá depois. É claro que a isso, não se pode responder. Ao menos, não com precisão e certeza. Fica a promessa de um texto sobre isso (a quem possa interessar tal assunto).

Vim aqui apenas homenagear alguém querido e trazer algo novo ao blog, a poesia. Como disse Vinicius, "depois da partida há sempre chegada". É aí que reside meu pensamento quando me deparo com a inevitabilidade da iniludível.

Dedico este post a meu avô Pedro (1918 - 2010).


Pedro mineiro

Dedico ao avô mais terno
este singelo poema aprendiz.
Ao homem que construiu,
Sem medo, uma família feliz
[mesmo com suas difilcudades.

Dedico a Pedro, patriarca,
a brasa do amor que abarca;
a amizade e as simplicidades
do amor que nunca se consumiu.
[quando você partiu, vô, trouxe inverno.

Se os pais não devem enterrar
Seu filhos, foi justa sua ida
pois não prorrogou uma vida
que já não podia continuar.
[anos e anos de tanta simpatia...

Pedro foi avô e gerou os pais
e as mães dos netos alegres de Inhaúma.
Foi o engenheiro das Minas Gerais
e da Ponte, para nossa doce fantasia.
[sua moral formidável foi apenas uma

Pedro se foi, e não agora
que se vêem esses tubos e dor.
Ergueu-se a outra hora,
outro tempo, calmo e sereno.
[Demos a ele nosso louvor!


Com isso, findo minha homilia
Ao mineiro simples e quieto
Que honrou seu nome e família
E de quem tenho orgulho de ser neto.

Luciano Pádua 1-10-2010